Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá

O único modo de salvar vidas e transformar a sociedade não é por meio de políticas públicas, por mais que elas possam ajudar em alguns aspectos. A verdadeira mudança só acontece pela Igreja Católica. É preciso uma grande movimentação de ressignificação do próprio ser, ferido em sua dignidade, para que se volte a Deus. Sim, as pastorais têm papel fundamental nessa batalha, mas nenhuma política pública é capaz de curar a ferida mais profunda da adoção: a rejeição, a falta de pertencimento, a dor de não se reconhecer como parte de uma sociedade. Só pelo amor e pelo encontro real com Cristo é que uma mãe, uma mulher ou qualquer pessoa que foi acolhida pode retornar ao seu projeto original.

Nesse cenário, todos nós somos chamados a ser sal e não pimenta nos olhos uns dos outros. O individualismo tomou conta de nossa sociedade a ponto de já não reconhecermos o outro como Cristo. O que nos aconteceu? Onde perdemos a capacidade de separar o que é deste mundo e o que não é? O que fizemos com nosso batismo?

E é nesse contexto que surgem as famílias adotivas — esses casais que são visitados por Deus. Sim, eu afirmo: Deus visita esses lares. Não falo em nome da Igreja, porque sou pequeno, indigno e sem autoridade teológica. Falo porque vivi isso na própria carne. Se hoje alguém me perguntasse se Deus existe, minha resposta seria tão clara quanto as vestes brancas daqueles que saíram da grande tribulação: o Senhor foi às mãos da morte para me resgatar, assim como fez com Adão. Eu estava envolto em pecado, e Ele me amou ali.

Ele me deu uma Igreja que ama, uma comunidade que acolhe, e sobretudo curou em mim a ferida original da rejeição sofrida na adoção. Pelo amor da família adotiva — que muitas vezes nem percebe o quanto é instrumento de Deus — acontece como uma pomada que cicatriza a chaga que não se fechava. De algum modo, os filhos também trazem uma nova dimensão à família que estava ferida, seja pela infertilidade, seja pelo medo de não conseguir gerar biologicamente.

E então surge o Espírito  nosso Espírito  convencido por um amor que chama a se abrir ao mistério que não damos conta. Pergunto: é normal um casal aceitar a infertilidade e passar anos numa fila de adoção sem nenhuma certeza do que irá acontecer? Isso não é humano, é graça. Muitos não têm sequer consciência da profundidade do que vivem, mas quando olho para as famílias adotivas, para as mães que, em amor sacrificial, entregam seus filhos à adoção, e para os filhos que carregam suas feridas, não posso dizer outra coisa: se Deus não existe, então tudo isso é uma grande farsa. Mas se Deus existe  e eu creio que Ele existe  é porque o amor não é sentimento, é decisão. É o espírito humano desejando encontrar o Noivo.

É por isso que a Palavra nos recorda: “Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá” (Sl 27,10). Essa é a ferida mais profunda da rejeição: a ausência de um abraço que deveria ser o primeiro da vida. Mas Deus não se esquece, Deus não rejeita. O amor humano pode falhar, pode fraquejar, mas o amor de Deus permanece fiel. Na adoção — seja de um filho, seja do próprio homem resgatado pelo Pai  vemos o cumprimento concreto desta promessa.

E São Paulo nos revela o mistério maior da nossa filiação divina: “Não recebestes um espírito de escravidão para recair no temor, mas recebestes o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: Abba, Pai!” (Rm 8,15). Esse grito é a resposta da alma ferida que encontrou um lugar de pertencimento. A mãe que entrega, o casal que acolhe e o filho que é recebido participam, de algum modo, desse mesmo Espírito de adoção. É um mistério de cruz e ressurreição: da dor nasce uma nova vida, do abandono nasce uma nova pertença.

Por isso, a Igreja nos chama a viver como sinal no mundo. Jesus disse: “Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-14). O sal conserva, cura, dá sabor; a luz dissipa as trevas. Ser sal e luz não é ser perfeito, mas é deixar que Cristo brilhe em nós e através de nós. O mundo precisa desse testemunho. Porque sem Cristo, tudo isso adoção, entrega, sacrifício, família  poderia parecer apenas uma ferida aberta. Mas com Cristo, se revela como uma história de salvação.

A família é o primeiro lugar onde o homem aprende a amar, a perdoar, a servir e a descobrir que sua vida não é para si mesmo, mas para o outro. Quando a família é ferida, toda a sociedade se enfraquece. Quando a família é fortalecida, a esperança floresce em cada geração. Por isso, toda luta pela vida, pela dignidade da criança rejeitada e pela restauração da ferida da adoção passa inevitavelmente pela família. Ela é o berço onde Deus continua visitando a humanidade.

São João Paulo II dizia com firmeza: “O futuro da humanidade passa pela família.” (Familiaris Consortio, 86). O Papa Francisco recorda: “O bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja.” (Amoris Laetitia, 31). E Bento XVI afirmou: “A família é a primeira e insubstituível educadora da paz.” (Mensagem do Dia Mundial da Paz, 2008). São palavras que nos chamam à responsabilidade: proteger a família é proteger a própria vida humana e o projeto de Deus para nós.

Assim, quando olhamos para as famílias adotivas, para os filhos que acolhem e para as mães que, em sacrifício, entregam, percebemos que Deus continua escrevendo sua história de amor em meio às nossas feridas. A família não é uma invenção cultural, mas um dom divino, e só quando voltarmos a reconhecê-la como tal poderemos curar as chagas mais profundas de nossa sociedade. Pois é nela que o amor se encarna, e é nela que Cristo quer continuar a salvar o mundo.